terça-feira, novembro 23

Nota de falecimento geólogo Augusto José de Cerqueira Lima Pedreira da Silva


No dia 07 de novembro passado, faleceu o geólogo Augusto José de Cerqueira Lima Pedreira da Silva. Poucos o conheciam por esse longo e pomposo nome. Para a maioria de nós, colegas e amigos, ele era simplesmente chamado de Augusto Pedreira ou, mais intimamente de Gugu.


Difícil essa tarefa de resumir em um texto tão curto a vida profissional e pessoal de Gugu. Que palavras-chave usaríamos para descrevê-lo? Baiano de Santo Amaro da Purificação, pai amoroso, esposo apaixonado e avô extremado, amigo, colega leal, professor generoso, homem honesto, ético, sábio, destituído de vaidade fútil, tímido, talentoso, um geocientista apaixonadíssimo pela Geologia, exímio (grande) desenhista e chargista, humorista com um senso de humor afiadíssimo e refinadíssimo... e por ai vai. Gugu foi tudo isso e muito mais.

Sua vida profissional como geólogo teve início em 1966, quando graduou-se em Geologia pela Universidade Federal da Bahia. Em 1971, na condição de bolsista da Organização dos Estados Americanos, especializou-se em Fotointerpretação Aplicada à Geologia no Centro Interamericano de Fotointerpretación (Colômbia), sob a orientação do Prof. Bastiaan Koopmans. Em 1994, tornou-se Doutor em Geociências (área de concentração Geoquímica e Geotectônica) pela Universidade de São Paulo, USP, com a tese Supergrupo Espinhaço na Chapada Diamantina Centro-oriental, Bahia: Sedimentologia, Estratigrafia e Tectônica, orientada pelo Prof. Benjamim Bley de Brito Neves.

Augusto atuou como geólogo da Empresa Técnica Comercial e Industrial de Minérios Ltda- TECMINAS, da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira-CEPLAC e do Departamento Nacional de Produção Mineral- DNPM. Entretanto, foi na CPRM (Serviço Geológico do Brasil) que ele desenvolveu sua prodigiosa carreira profissional, no período de 1972 a 2011.

Nesses 39 anos de CPRM, Augusto (Gugu) esteve envolvido em múltiplas áreas de conhecimento, com ênfase para os temas Geologia Regional, Estratigrafia, Sedimentação Precambriana, Geotectônica e, em especial, a Geologia da Chapada Diamantina e da Bacia do Rio Pardo. Também colaborou intensamente no estudo da Bacia do Salitre (Bambuí) e nas bacias fanerozóicas do Parnaíba, Parecís e Iguatu.

Desenvolveu nesse tempo, atividades de mapeamento geológico, coordenação e supervisão de projetos, coordenação executiva de Levantamentos Geológicos Básicos, com ênfase à geologia das bacias, inúmeros e variados programas de treinamento de pessoal, com ênfase nas áreas de fotogrametria e fotointerpretação, cartografia geológica, sistemas deposicionais e estratigrafia.

Como chefe do Projeto Bahia foi pioneiro, juntamente com Juracy Mascarenhas, na caracterização dos primeiros greenstone belts brasileiros (e sul-americanos), durante a elaboração do relatório final do projeto. Como Coordenador Nacional de Sedimentologia dos Levantamentos Geológicos Básicos do Brasil, foi o principal responsável pela padronização da nomenclatura de rochas sedimentares e dos termos usados para catalogação dos ambientes e sistemas deposicionais, no Banco de Dados Corporativo da CPRM (GEOBANK)

Não demorou muito para que o pessoal da academia o convidasse a contribuir com seu talento e capacidade na área de ensino e pesquisa. Dessa forma, atuou entre 2005 e 2009, como professor no Instituto de Geociências da UFBA, ministrando as disciplinas Geologia Física e Topografia e Desenho Geológico. De 2009 até o seu falecimento, esteve vinculado ao Centro de Geologia da Universidade do Porto/Uminho, Portugal, na condição de pesquisador colaborador. Além disso, foi orientador de trabalhos de conclusão de curso (TCC) e participou de dezenas de bancas de mestrado, de doutorado, de qualificação de doutorado e de TCC.

Ultimamente, após sua aposentadoria da CPRM em 2011, vinha exercendo a função de Gerente de Publicações da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral-CBPM. Diante de uma carreira tão densa e tão brilhante, a comunidade geocientífica, em reconhecimento à valiosa contribuição prestada por Augusto Pedreira à evolução do conhecimento da geologia da Bahia, do Brasil e, em especial da Chapada Diamantina, o agraciou com as seguintes premiações: 2001, Reconhecimento do Serviço Geológico do Brasil pela excelência do trabalho Mapa Geológico do Brasil, escala 1:2.500.000, Serviço Geológico do Brasil – CPRM; 2003, Placa em reconhecimento aos serviços prestados no campo da Geologia e Sedimentologia do Precambriano, Associação Baiana de Geólogos, CREA-BA, SENGE-Sindicato dos Engenheiros da Bahia; 2003, Medalha de Ouro Orville A. Derby, Sociedade Brasileira de Geologia; 2011, Medalha Theodoro Sampaio, Sociedade Brasileira de Geologia - Núcleo da Bahia-Sergipe.

Certamente que Gugu ficará eternizado na história da Geologia pelo conjunto de sua obra. Entretanto, para aqueles que tiveram o privilégio do seu convívio, a memória da sua obra será acrescida pela recordação das suas citações bem humoradas. O humor, sem dúvida uma de suas características mais marcantes, fez com que logo após sua partida, alguns colegas (Pedrosa Soares, Ivo Dussin, Paulo de Tarso, Luiz Carlos da Silva e tantos outros) enviassem mensagens lembrando algumas de suas frases e citações, das quais escolhemos algumas:

1996 - Excursão do Congresso Brasileiro de Geologia, Bacia do Rio Pardo e Faixa Araçuaí, diques máficos de Olivença... Pedreira logo toma lugar no buteco da praia... Pedrosa , essas coisas ígneas são muito  calientes pro meu gosto... Vou tabaquear e tomar uma beer,enquanto você mostra o  outcrop  pro pessoal.

14 anos atrás, no Bar da Pirâmide, em Morro do Chapéu, comentou os já muitos casamentos de dois amigos da UFMG: O primeiro casamento é o triunfo da paixão sobre a razão; O segundo casamento é o triunfo da esperança sobre a experiência; O terceiro casamento é o triunfo da boçalidade sobre a inteligência... Eleve ao cubo se for com a mesma mulher!

Diante da grande quantidade de nomes de unidades estratigráficas, relembrava sempre: A nomenclatura estratigráfica é o triunfo da semântica sobre o bom senso!

Sobre o emaranhado de datações e citações geocronológicas, costumava dizer: “Esse pessoal só se preocupa hoje em dia com aniversário de rocha"

Luizão conta que ao ser apresentado a ele pelo Juracy Mascarenhas e ao ficar sabendo  que ele era de Santo Amaro,  caiu na besteira de dizer "Então você é da terra do Caetano?" ao que  ele prontamente retrucou: Não,  o Caetano é que é da minha terra, pois cheguei lá antes dele.

Uma noite em Rio de Contas, rodeado de atentos estudantes da UFMG, resolveu contar como foi seu infarto: Fui convocado pelo Divino. Levei roupa de anjo e uma harpinha pra tocar na orquestra do céu... Me dispensaram na última hora!

Congresso Brasileiro de Geologia em Aracaju, 2006. Gugu, membro da Comissão organizadora ouve de uma colega (também da Comissão) queixas de cansaço e dores no corpo ao acordar e faz a seguinte observação: Minha coleguinha, quem já passou dos 50 e acorda sem sentir dor em lugar nenhum, é porque acordou morto.

É por tudo isso que o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), ou simplesmente a CP como Augusto carinhosamente chamava, sente-se extremamente honrada em tê-lo tido em seu quadro profissional, em ter contado com seu empenho e seu talento, abrilhantando os nossos trabalhos, com sua generosidade disseminando seu conhecimento aos novos.

Nosso eterno agradecimento ao geólogo e colega Augusto Pedreira e nosso eterno pesar e saudades por sua partida precoce.


Que Deus conforte sua família.
  
Diretoria Executiva da CPRM
Superintendentes e Chefes de Residências